03/04/2019

REVIEW | MOB PSYCHO 100 II

Fawkes
Fawkes
Administrador

Você aí, eventual millennial, nerd e otaku que acompanha as linhas traçadas aqui no JBox, aposto que deve consumir uma porção de materiais diferentes no seu dia a dia. Animes, mangás, outros tipos de quadrinhos, outros tipos de desenhos animados, filmes, séries, músicas, livros, jogos lhe fazem a cabeça. E dito isso, aposto que você também compartilha de um sentimento ligeiramente bocó, o qual, por vezes, muito me afeta: a sensação de que boa parte dessas coisas, ao fim, acabam sendo mais do mesmo.

Não que “mais do mesmo”, de fato, seja uma qualificação pejorativa. Por exemplo, quando frequento uma famosa franquia árabe de fast food, já tenho como certas algumas das esfirras baratonas que pedirei no caixa, pois sei que elas são deliciosas e que as repetir, embora não seja uma experiência que fuja do habitual, será satisfatória de qualquer modo. Assim como é suficientemente divertido assistir sei lá quantos animes semelhantes em fórmulas, técnica e traços. A repetição, quando bem feita, diverte, admitamos. Mas você já saiu da rotina e, sei lá, pediu uma lagosta ou algum outro prato bem caro e elaborado num restaurante? Porque a experiência de assistir Mob Psycho 100 é mais ou menos essa.

Baseado no mangá de mesmo nome do autor One (aquele de One Punch-Man), com 16 volumes, publicados no Japão entre 2012 e 2017, temos aqui a história do estudante do ensino médio Shigeo Kageyama, apelidado de Mob, que embora ostente um físico frágil e um olhar estoico, carrega um surpreendente segredo: é um grande telepata. Entre os poucos que sabem disso está seu chefe, Arataka Reigen, que não possui habilidades paranormais, mas toca uma empresa especializada em consultas psíquicas, utilizando os poderes de Mob para lidar com ameaças vindas de outro mundo. A 1ª temporada foi ao ar em 2016 (e tem até versão dublada em português), a 2ª começou em janeiro deste ano, terminando dias atrás.

 

Tomando isso como engate, Mob Psycho 100 abraça em sua produção um leque imenso de possibilidades animadas em tela, indo muito além do arroz com feijão às séries televisionadas e se aproximando bastante do esforço que costumam separar para animes em longa-metragem. Há uma ousadia incomum durante os episódios. A direção explora ângulos fora do comum, com a “câmera” pegando os personagens e cenários por cima, baixo, lados, em movimentações bastante inusitadas entre os planos principais e fundos, que aumentam a sensação de novidade conforme o assistimos. Também são adicionados modos diferentes de desenhos dentro dele, ora com os personagens aparentando “pobres” em finalização (lembrando comédias adultas, tipo Bojack Horseman ou F is For Family), ora ultratrabalhados em seus frames, como em filmes 2D da Disney. Por vezes, mesclam eles em técnicas habituais, mas com cenários e fundos em aquarela, ou feitos como se usassem giz de cera. Mesmo os momentos de cgi são bem impressionantes, ainda que pontuais. E quando querem exagerar, o fazem de verdade, transformando o ambiente ao redor numa viagem de ácido, absurdamente colorida, surreal, capaz de causar tonteiras.

E aí está um caso onde a técnica não é usada como perfumaria, como se precisasse disfarçar defeitos através da loucura, sim como parte da narrativa, tocando-a pra frente. Isso pois o roteiro é totalmente propício a abraçar essa insanidade como parte do pacote. Claro, sem abrir mão do principal dentro de uma narrativa: contar uma história. E essa história é tão bem feita, tão divertida, interessante, identificável, emocionante. São as aventuras de Mob, um adolescente com problemas em interagir socialmente, se encontrando, melhorando sua relação com os colegas de escola, com a família e demais agregados que possam aparecer pelo caminho. Tudo ampliado pelo background paranormal, que adiciona espíritos, criaturas místicas, charlatões desse nicho, outros telepatas e organizações secretas no balaio. Durante toda a 1ª temporada, observamos seus passos iniciais ao mundo e os fatores que o levaram a ser assim atualmente. Na 2ª, Mob Psycho II, conferimos Mob colocando em prática o que aprendeu, evoluindo como personagem levando os outros nesse caminho.

Há pelo menos uns 5 ou 6 momentos espetaculares, quase desnorteantes, em Mob Psycho II. Boa parte deles está num arco onde Mob ajuda uma menina a se livrar de uma possessão. Nele, a direção dá um banho em termos visuais, tocando o terror em tela com várias variações na animação, além de explorar o enredo como se tudo fosse um thriller psicológico angustiante do início ao fim. Outros estão numa sequência relativa a perseguição midiática e linchamento online que certo personagem sofre, surgindo como uma alfinetada coletiva que me pegou desprevenido. E rola um cliffhanger ao fim de um episódio lindíssimo onde os estudantes correm uma maratona (meu favorito em todos) que me causou arrepios, sendo um dos momentos de ápice narrativa em animes nos últimos anos.

Mob Psycho 100 II é o melhor anime que assisti nessa temporada e um dos melhores que vi em toda minha vida. É lindamente apurado em sua técnica. É ousado em vários e vários pontos que eu sequer sentia falta que animes fossem ousados. O roteiro é bem poderoso, explorando os personagens e acontecimentos que ditam o andamento deles através de um texto afiado, não de coincidências óbvias. A animação é quase anárquica em suas muitas experimentações. Não existem nele momentos desnecessários. Cada episódio é uma experiência em si. Não tenho ideia se o mangá se assemelha em qualidade, mas todo ele soa como algo idealizado já para uma animação. Também não tenho ideia se algum anime mais forte sairá este ano, mas admito que duvido, pois essa seria uma tarefa muito difícil mesmo para a produção em massa japonesa atual. É esperar para ver.

Esse texto toma como base os 13 episódios de Mob Psycho 100 II. Aqui no Brasil, o anime está oficialmente disponível com áudio em japonês e opção de legendas em português pela Crunchyroll.

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